Sobre-viver

Diz o livro que todas as famílias felizes são iguais, mas as tristes são cada uma à sua maneira. Eu tendo a achar que é o contrário: nossas misérias são tão parecidas, enquanto tantas felicidades diferentes são possíveis.

Engenheiro, vendedor, cantor de ópera, professora de inglês. Todos diferentes, mas iguais. Todos motoristas de Uber que estavam ali porque “não está fácil para ninguém”.

Quando entrei naquele carro, aquela manhã, esperava algo parecido.

O condutor tinha muitos cabelos brancos e uma grande dificuldade para seguir as orientações do GPS. Fiz o papel de intérprete já desde a primeira curva, para evitar que entrássemos na contramão. E foi depois disso que João se sentiu à vontade para falar de si.

Foi executivo de uma empresa. Teve vários imóveis, carros, vida confortável, até que viu sua renda despencar após a aposentadoria. Mas, diferente de outros motoristas, João não seguiu a rota de falar sobre dívidas, finanças pessoais e afins.

– Você já viu como é uma onda em alto mar?

Respondi que não, e ele continuou.

– Ela não arrebenta, apenas sobe muito alta e, quando você está nela, não tem muito o que fazer. Foi por causa de uma dessas que eu passei 30 horas a deriva.

Muito antes de se aposentar, João tinha prazer em pilotar seu próprio jetski. E, como uma espécie de motoqueiro rebelde, seguia para longe da costa, navegando um alta velocidade e solitariamente.

Em um desses passeios, o jetski não foi rápido o suficiente para superar uma grande onda, e acabou capotando.

Sem o seu veículo, com sunga e colete salva-vidas, João se viu em alto mar sozinho. A distância o impedia de nadar até a praia. Esperou por socorro, enquanto viu o sol se pôr e nascer. Aos seus pés, disse ter visto grandes peixes o rondarem, como urubus à espera das carcaças do fim da vida.

Em solo, o jetski já havia aparecido, e nenhum sinal do condutor. A esposa havia acionado amigos influentes para que fosse ainda maior o efetivo envolvido nas buscas. Mas de nada adiantou. Sem sucesso, as operações foram encerradas.

E foi então que, quando já não sabia mais o que era real, João viu se aproximar uma pequena embarcação de caiçaras. Pescadores de homem, eles o retiraram das águas. Ainda na embarcação, o deram água e alertaram por rádio sobre o estranho fruto colhido naquele dia.

João falou pelo rádio com o filho e a esposa. E chegou algumas horas depois na praia, onde era aguardado por curiosos, pela guarda costeira e pela imprensa. Não quis falar com ninguém. E também se negou a entrar na ambulância que o aguardava. Foi direto para os braços do filho e da mulher.

Sobreviver. Para João, isso era a felicidade.

 

Anúncios

Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
Esse post foi publicado em Conversas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s