Só-mente

Eu ensaiei esse texto dezenas de vezes na minha cabeça antes de escrevê-lo. E tentei ter muitas desculpas para não fazer com que ele nascesse, viesse ao mundo e deixasse de ser meu. Como um filho do cérebro, como Atena que nasceu da cabeça rachada de Zeus.

Ele veio ao mundo, depois de horas tomando um café ruim acompanhada por um bom livro, esperando passar o tempo e uma tempestade que faz lembrar que  s humanidade não é nada e não consegue sequer vencer a chuva de verão na hora do rush. Reclamações do trânsito, metrô parado, preço dinâmico no Uber. Tudo trocado por um café ruim e um bom livro.

Mas eu estava em um shopping, que não é necessariamente o lugar mais bucólico e sossegado para ler uma história melancólica. Na minha frente, alguém saca um computador de maçã mordida, velho, como o que eu uso para escrever agora. E briga com sua mãe. E todos participam um pouco dessa conversa. Fica difícil conversar com Beatriz, a personagem do livro, ser interrompida pela realidade.

Saco o fone de ouvido, acoplo ao celular e escolho a playlist de sempre, para concentração. É como se, agora, Beatriz falasse acompanhada por uma trilha sonora. E consigo falar com ela, me ver na Argentina, exilada. E, como ela, eu me exilei momentaneamente da realidade e penetrei em um mundo só meu.

Esse mundo só meu você pode chamar de solidão. É algo que estou aprendendo a conviver pela primeira vez – talvez a segunda.

Eu nunca estive sozinha. Criança, eu já dividia o quarto com meu irmão, nunca tive um espaço só meu. Assim era todo o minúsculo apartamento de onde vem boa parte das minhas lembranças, onde vivi até o dia em que fui embora da cada de meus pais (as duas vezes). Eu sempre tinha companhia, na sala, na cozinha, se escolhia me deitar na cama de casal dos meus pais. Nenhuma porta ficava fechada, nem a que dava para o corredor do prédio e, muitas vezes, nem a do banheiro, acredite.

Então imagine o quanto lidar com a solidão nunca foi uma opção. Mas acho que inconscientemente, eu queria estar só. Enquanto meus amigos se divertiam indo a shows e festas, eu sempre gostei mais dos livros. Não que eu não me divertisse em festas – amo dançar. E não que eu seja o tipo que se envolve em um casulo em situações sociais. Não é nada disso. Eu só curtia estar só, ainda que fosse naquele breve momento, ou gostava de companhias imaginárias, literárias.

Parece que a solidão se tornou um crime, uma doença. É preciso estar rodeado sempre por pessoas.É preciso, mesmo quando se está sozinho, curtir aquela solidão em conjunto com o restante da humanidade via redes sociais. Estar só não é visto com naturalidade, como se isso te tornasse um pária, alguém que deve estar só pelos mais torpes dos motivos – não é uma boa pessoa, é ariana, ronca à noite, fez comunicação social, votou no partido X. Se afastar das pessoas é sinal de alerta para depressão, ansiedade. Que pavor estar só.

Mas estar só é diferente da solidão, que é um estado em que se pode estar mesmo rodeado de pessoas. A solidão te permite olhar para si, te dá o silêncio necessário para ouvir o que está no seu cérebro. Te permite ler os livros que se ama, conhecer incríveis personagens, pensar sobre a vida, ouvir a sua música favorita sem ter que pedir licença. Eu danço solitariamente, ando sem roupa em casa. Exercito essa solidão há alguns meses, e ela tem me atraído de uma forma que a mim também dá medo.

Tenho medos bastante naturais, como o de passar mal sozinha em casa e morrer. Ou de ver uma barata e não conseguir matá-la – um dia da caça. São coisas que me afastam da vontade de estar só. Mas eles passam, e eu me afeiçoo com a sensação de poder chegar em casa e não ter que falar com ninguém, ficar comigo apenas, da forma que eu escolher. Sem negociar o cardápio da noite ou o lado da cama, ou se eu quero ou não fazer sexo ou falar sobre o dia.

Aos domingos, me vejo não atendendo as ligações da minha mãe porque apenas desejo estar sozinha. E me assusto, porque é uma pessoa que amo e que sei que ama falar comigo. Mas olho o telefone e não atendo. Me pergunto se estou ficando doente, se estou me afastando das pessoas, e tenho raiva de medicalizar um desejo que me parece natural, que é o de ter a minha companhia apenas às vezes.

Nasceu, nasceu esse texto, que é filho da solidão. Fica, não vai embora.

Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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