Como conseguiram estragar Alice no País da Maravilhas

A Alice de Tim Burton

A Alice de Tim Burton ou de quando o nonsense deu lugar à profecia

Frustração. Não há como definir em outra palavra a minha ida ao cinema para assistir o lançamento do momento (perdoe-me a redundância). Esperei Alice como quem espera urgentemente por uma boa notícia. Mas não teve acordo. Do princípio ao fim da sessão só pensei em ir embora e esquecer que assassinaram a melhor história infantil de todos os tempos.

(Se você não quer saber mais sobre a história, melhor parar de ler por aqui)

Esquecer. Foi justamente isso o que aconteceu. A história toda se passa porque Alice volta ao País das Maravilhas, mas já não se lembra que esteve lá na infância. Quem já leu  o livro ou, ao menos, viu o desenho da Disney, já percebe aí uma grande diferença. É, Alice já não é criança e isso tira a graça de boa parte da história: a todo momento ela tenta entender o que está acontecendo. E aí morre um princípio básico do País das Maravilhas original: o de que aquele lugar não está ali para ser entendido, mas para ser vivido em toda a sua estranheza, beleza e até perversidade.

Como se não bastasse, outro princípio básico do texto original vai para o lixo: o de que você não sabe de onde toda aquela loucura veio e para onde vai levar. Logo nas primeiras cenas com a lagarta azul, Alice descobre um pergaminho com todo o passado e futuro (!). E lá está que ela vai salvar (!!) o País das Maravilhas de um bicho qualquer que mete medo e está a serviço da tirana Rainha de Copas. A Rainha de Copas, por sinal, é tirana porque tem uma cabeça grande e inveja da irmã bonita. O Chapeleiro ficou maluco porque viu a destruição do reino nas mãos da Rainha de Copas e, hoje, é um dos líderes de um motim para tirá-la do poder. Sim, até o coelho branco com o relógio é um dos que planeja o golpe de Estado e, por isso, foi buscar Alice na superfície – afinal, profeticamente, ela é quem vai acabar com o domínio do mal vermelho. Lewis Carrol se revolve no túmulo.

Como se ainda fosse possível estragar ainda mais tudo, a Disney ainda faz o favor de incluir um tipo de “moral da história” – convenhamos, o pior que poderia acontecer ao livro. Alice salva o reino e vira heroína, o Chapeleiro (mais sentimental e melancólico do que maluco propriamente) vira seu grande amigo, ela aprende que tem que voltar para casa para resolver as coisas (a la Doroty?) e toma o rumo da sua vida, virando uma empresária de sucesso. Nada mais anti-Alice (a boa e louca Alice, ao menos).

O que fica disso tudo? A certeza de que somar coisas boas (Lewis Carrol, Tim Burton, Johnny Depp, grana da Disney, cinema 3D…) não dá necessariamente um bom resultado. Faltou aquela pitada de loucura, ousadia e nonsense. Faltou ao roteirista ler Alice com um pouco mais de carinho.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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