De como meus enfermeiros salvaram o fim de semana (parte I)

Quando a rotina quase mata, qualquer um reza por folga – de preferência, longa (meu Deus, por favor! Que esse fim de semana  seja bem longo!, penso eu, entre uma morte e uma agenda cultural para fazer).

Deus atendeu às minhas preces, mas, como em comédias pastelão, eu não fiz o pedido direito. Eis que, na quinta-feira, quando me acordo, a dor nas costas que se arrastava por dois dias incomoda um pouco mais. Para ser mais exata, o “pouco mais” me impedia de andar direito, levantar a perna direita e soltar o ar dos pulmões sem sentir A Dor.

Como qualquer pessoa que não quer morrer aos 22 anos, eu fui ao hospital, mas não antes de seis horas de trabalho – como qualquer pessoa que odeia a rotina mas tem algum senso de responsabilidade. Após seis horas no “Morre” do Peludo, desço a pé o Everest do telejornalismo e pego o ônibus que me levaria à Avenida Agamenon. Meu destino era o Hospital São Marcos. Eu já disse que estava chovendo?

Sem guarda-chuva, doída e doida para tomar um analgésico, saio do ônibus e espero a tempestade passar de baixo de um guarda-sol que, como qualquer guarada-sol, é meio inútil na chuva – principalmente quando você está competindo na proteção com um tabuleiro de guloseimas (vocês sabem que quem pode se molhar sou eu, porque as doces é que são feitos de acúcar).

Depois de ficar com a calça jeans molhada até o joelho e levar “alguns” pingos também nas costas e cabeça, São Pedro se lembra de fechar a torneira e eu caminho até o hospital – se fosse público, não teria ar-condicionado em todos os ambientes e, talvez, eu até sofresse menos frio.

A espera foi tão grande quanto no SUS. Quando cheguei, o sol ia embora (em Recife, umas 5h30, acho). Quando EU fui embora, eram mais de 10h. Durante essas horas incansáveis, meu pai foi minha companhia e meu primeiro enfermeiro. Antes de qualquer triagem médica, o senhor Amauri de Carvalho Aquino estava lá.

Ele chegou pouco depois de mim e logo me socorreu com o blazer que é três vezes maior do que eu. Meu pai, que não é tão grande, pegou a roupa emprestada pensando em me aquecer. Como se não bastasse, ele tirou meus sapatos e esquentou meu pés com as próprias mãos – eu, sentada na poltrona, ele, de cócoras na minha frente.

A sala com a poltrona, a enfermaria, foi onde fiquei incontáveis horas tomando soro e esperando o resultado dos exames de sangue e urina. A cena não era bonita por um lado. Pense em alguém (eu) com cabelos desgrenhados pela chuva, calças arregaçadas até metade da canela, vestindo um blazer gigante a la Didi Mocó, uma braço estendido recebendo soro e o outro flexionado, esperando estancar outra picada de agulha. Mas, o melhor da cena era meu pai, de joelhos, tentando secar meus pés com papel de enxugar mãos, segurando um pé de cada vez por alguns segundo para meu sangue voltar à ponta dos dedos.

Horas depois, já com menos frio e bem mais cansada, ouço a voz de um médico que não tinha visto até o momento dizendo “Andréa Maciel Aquino? Confirmado o diagnóstico de infecção urinária. Podem tirar o soro. Depois vá para o consultório 1”. Lá, ele me falou de sintomas que eu não tinha, que eles deviam passar logo e eu, me sentindo quase curada, aceitei dores que não eram minhas só para sair logo daquele local.

Meu pai também estava lá. Além de enfermeiro e companhia, foi motorista de ambulância. A doentinha manca e dolorida foi para casa. No outro dia, eu não iria trabalhar. A folga nesse caso, claro, não foi um alívio. O remédio seria. Paramos em Boa Viagem, em uma farmácia qualquer, e levamos a cura em doses para ingerir de 12 em 12 horas por cinco dias.

Assim começou meu fim de semana dedescanso completo. Mas se vocês perceberam, eu só falei de um enfermeiro. Nos próximos dias, me dedico aos outros (A ordem é cronológica, ok? Mas todos são amores da minha vida).

A meu pai, Amauri.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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Uma resposta para De como meus enfermeiros salvaram o fim de semana (parte I)

  1. Amauri de Carvalho Aquino - O enfermeiro disse:

    Olá Deinha
    Só hoje 19/07/2010 tive o prazer de ver sua bela narrativa me colocando como um personagem de seu mundo real.
    Fiquei emocionado. Um filme me passou pela cabeça.
    Lembro que já tivemos um outro em um hospital vendo um jogo do Brasil 3 x 0 Marrrocos? Não lembro o ano.
    Pela sua idade tudo aquilo era apenas uma brincadeira. Para mim era sinsitro.Fiquei aflito quando o médico chegou para te dar alta.
    “Já pode ir para casa”. Fiquei contente. Saímos de lá felizes e contentes como num final de um filme.
    Bj

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