Carmina Burana para pernambucano ver, ler e ouvir

Difícil alguém não ter ouvido Carmina Burana, composta em 1937 por Carl Orff, baseada em poemas medievais do século XIII. A primeira música da cantata é muito utilizada em filmes, comerciais de tv e coberturas jornalísticas, principalmente as esportivas. Mas poucas vezes tem-se a chance de assistir ao espetáculo completo, com seus 25 movimentos/músicas executados ao vivo e em todo o seu esplendor. Foi isso o que o público pernambucano pôde ver na noite da última terça-feira, 18, no Teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A apresentação única, no Teatro da UFPE, é parte das comemorações do Dia da Música, celebrado em 22 de novembro, e do fim do semestre letivo da Universidade. O ingresso? Um quilo de alimento não-perecível, para ser doado a instituições de caridade. O espetáculo? Três cantores solistas, um coro com cerca de 160 pessoas e mais 25 músicos – 2 pianistas, 6 percussionistas e 17 instrumentistas no naipe de metais e madeiras. O resultado não poderia ser diferente: auditório lotado e aplausos (um pouco incômodos) a cada nova música apresentada.

Quase duas mil pessoas foram ao Teatro da UFPE e prestigiaram a apresentação. A facilidade do acesso e a boa divulgação na mídia podem explicar, em parte, o sucesso do espetáculo. Mas isso não desmerece a empreitada dos organizadores do evento, o maestro Flávio Medeiros e a produtora Virgínia Cavancanti. O que se pôde ver foi um misto de apuro artístico e procupação com o público, este último, não raramente esquecido nas apresentações de música erudita.

A atenção ao público ficou evidenciada no uso da tradução simultânea das letras das músicas, feita através de um telão instalado acima do palco. Ao mesmo tempo que ouvia e via a performance dos músicos, os espectadores puderam entender o significado dos versos em latim, alemão arcaico e frâncio, tornando ainda mais forte o sentido da música. Como entender o andar cambaleante do tenor Isaac Pedro em Ego Sum Abbas (“Sou o abade”) se não soubermos que as palavras são de um bêbado em um taverna? Na execução do primeiro movimento, O Fortuna (“Ó Fortuna”), a tradução ainda permitiu ao público se desvencilhar da ligação entre essa música e seu, muitas vezes abusivo e sem critério, uso na cultura de massa. O sentido dos versos nada lembra perseguições a bandidos ou jogos olímpicos, já que fala em fatalidade, da sorte que levanta e destrói o ser humano.

O apuro artístico foi garantido pela participação de músicos de peso na apresentação. O próprio regente e organizador do evento, Flávio Medeiros, por exemplo, é especialista em Orff-Schulwerk, o método de ensino de música criado pelo autor de Carmina Burana, Carl Orff. O maestro pernambucano possui quatro diplomas concedidos pela própria Associação Americana Orff Schulwerk, na Eastman School of Music – Nova York. Além dele, pode-se destacar a presença do barítono mineiro Sebatião Teixeira, um dos solistas da apresentação, que já foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria de Melhor Cantor Erudito.

Todos esses “Ases” da música seriam inúteis, porém, se não existisse uma integração entre solistas, coro, músicos e a própria cantata. Não foi o que se viu. Houve um hamônico encaixe dos envolvidos, tornando mágico e sublime o ambiente. A ênfase dada, na partitura original, à percussão e ao coro foi mantida. Os espectadores, (co)movidos pela perfomance, aplaudiam cada novo movimento – o que, claro, quebrou o ritmo da apresentação e poderia, ainda, desconcentrar os músicos. O maestro porém, não parecia se preocupar, e aproveitava as pausas para sacar um lenço do bolso e secar o suor da testa. No final da apresentação, ele ainda agradeceu aos aplausos incessantes voltando ao palco e fazendo um bis de O Fortuna. Fica a torcida para que o bis se estenda a outros momentos, que tais espetáculos não sejam raros, mas se tornem rotina.  

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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3 respostas para Carmina Burana para pernambucano ver, ler e ouvir

  1. Assiste o vídeo. Parabéns pelo bom gosto. Não há quem emocione com o poder de Carmina Burana.
    Feliz Natal ! ! !
    Fábio / Goiânia

  2. Andréa Maciel disse:

    Obrigada, Fábio! Boas festas pra vc tb!

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