“Não somos piratas: somos fãs”

(texto feito para a disciplina de Edição)

O caminho dos grupos brasileiros de tradutores independentes

Julho de 2007, Harry Potter e as Relíquias da Morte, tradução do último livro da saga, é lançado no Brasil. Final de Julho de 2008, é publicada em nosso país a série de quadrinhos francesa O Terceiro Testamento. Fevereiro de 2009 é a previsão para que seja transmitida, em TV aberta nacional, a quarta temporada do seriado americano Lost. 

Por mais diferentes que sejam os produtos acima, eles guardam semelhanças entre si. A primeira delas é o fato de só chegarem oficialmente ao Brasil, no mínimo, meses depois de serem lançados no exterior. A segunda é que Lost, Harry Potter e O Terceiro Testamento foram traduzidos distribuídos gratuita e largamente na internet muito antes de seus releases oficiais. Os responsáveis por isso são os fãs que, em grupo, se dedicam a fazer versões em português de livros, quadrinhos e legendas.

HARRY POTTER – O trabalho era grande. Os tradutores tinham que vencer um calhamaço com mais de 600 páginas: o livro de J.K. Rowling, Harry Potter and the deathly hallows. A proximidade com a linguagem da autora e com o universo dos personagens ajudaram na execução do tarefa. Mas o que parece ter pesado mais para a rapidez da produção foram os mais de cem voluntários participantes, entre tradutores, revisores e diagramadores responsáveis pela adaptação – todos em contato pela internet, principalmente através do sites de relacionamento Orkut. Em 26 de julho, cinco dias após o lançamento do livro em inglês, estava pronta a primeira versão do texto em português. Era o começo da comunidade mafia dos livros. 

“Minúsculo e sem acento mesmo: faz parte da história da comunidade”, lembra Raul Nogueira, estudante do Ensino Médio, que se intitula diretor de traduções. Qual a história?  Não colocaram o acento na hora de criar a comunidade. “E decidimos permanecer assim por causa de uma critica que fizeram, de que eramos analfabetos e deviamos aprender primeiramente o português, para depois traduzir alguma coisa. Mas somos tão analfabetos que nossa versão é quase idêntica a da tradutora oficial”, gaba-se.

A comunidade possui hoje mais de 8 mil membros e cerca de 50 tradutores. Entre os atuais trabalhos estão as traduções de The Bourne Legacy, livro de Eric van Lustbader, e de James Potter and the Hall of Elders Crossing, uma continuação não-autorizada da série Harry Potter, escrita por George Norman Lippert. “Com o James Potter, nós reunimos algumas equipes de tradução da Espanha, Portugal e da América Latina. A iniciativa veio de um membro de um grupo espanhol, que é amigo pessoal do autor e quer lançar o livro em diversas linguas”, afirma Raul.

HQ – O Terceiro Testamento foi o primeiro trabalho do grupo The Centurions, especializado na tradução de quadrinhos. O primeiro volume da série é distribuído na internet desde outubro de 2007, quase um ano antes do lançamento oficial dessa HQ no Brasil. Comparado com a “mafia dos livros”, The Centurions parece um grupo pequeno. Segundo Cleson Cruz, formado em Engenharia Eletrotécnica e líder do grupo, há cerca de dez colaboradores freqüentes e mais dez esporádicos, todos amigos apenas pela internet. “Apenas um conheço pessoalmente”, comenta. A possível falta de pessoal é compensada pela bem definida divisão de tarefas: “Normalmente participam de uma tradução até quatro pessoas: tradutor, diagramador, revisor e capista, o responsável pelas capas. Algumas vezes um deles acumula mais de uma função”.

Demora para terminar uma versão em português? “Depende muito do tempo que os envolvidos tenham disponível e da complexidade do gibi. Já teve HQ pra demorar um mês, enquanto outros demoraram uma semana”, explica Cleson. Todo o material produzido fica disponível no blog

hqthecenturions.blogspot.com e na comunidade do grupo no Orkut. A escolha do que será traduzido obedece ao critério de acesso: o objetivo é compartilhar, principalmente, HQs raras, que não chegam ao Brasil ou que demoram a ser lançados nacionalmente. Mas o gosto do tradutor também conta. “Estamos traduzindo The Stand (A Dança da Morte, na versão brasileira), do Stephen King, lançado recentemente pela editora Marvel, nos Estados Unidos. Eu fiquei louco ao ver que a história seria lançada em quadrinhos, então anunciei aos quatro ventos que essa tradução era minha e nem se atrevessem a pegar! Sou fã do King! (risos)”.

Perguntado se o grupo já enfrentou algum problema legal por causa do seu trabalho, Cleson não desconversa. “Até o momento, nunca. Na minha opinião os quadrinhos não deveriam entrar nessa questão de direitos autorais, porque o material que nós traduzimos, em sua maioria, não vai chegar no Brasil e, se chega, o verdadeiro fã compra do mesmo jeito. Na verdade o scan (a cópia escaneada e distribuída pela internet) é até uma forma de divulgação para as editoras”. Ele cita o exemplo das editoras americanas DC Comics e Marvel. Segundo Cleson, a primeira é a favor da distribuição de scans. Já a Marvel, apesar de anunciar publicamente ser contra os scans, passou a disponibilizar versões digitais de suas revistas em 2008. 

SÉRIES – Por mais numerosos que sejam os grupos que fazem versões de HQs e livros, o caso mais emblemático de traduções coletivas ainda é o das legendas para filmes e seriados. Basta que um episódio da série Lost, por exemplo, seja lançado na internet para que os fãs comecem o trabalho. O número de voluntários é tão grande que as atividades começam e terminam na própria madrugada do lançamento do capítulo e a legenda em português fica pronta em pouco mais de três horas. “Mas este é um caso excepcional e a média fica em torno de 8 horas de trabalho. Para filmes, a conclusão de uma legenda pode demorar um dia inteiro de trabalho conjunto”, explica Pedro Henrique, estudante de Direito e administrador do site Legendas.TV, acessado cerca de 60 mil pessoas todos os dias.


“Apenas no Legendas.tv, temos, pelo menos, 100 tradutores fixos e 200 ajudantes. São pessoas espalhadas por quase todos os estados do Brasil e algumas de outros países. Há quem legende apenas blockbusters e quem se dedique aos filmes alternativos, por exemplo. O segundo grupo tem uma importância enorme porque quase sempre legendam filmes que jamais chegarão ao Brasil.”, destaca Pedro. Para cada vídeo de 40 minutos trabalham, em média, cinco pessoas: dois tradutores, dois sincronizadores (que marcam o tempo de cada fala) e um revisor. A manutenção do site fica a cargo de cinco administradores. Os custos são cobertos pelas propagandas veiculadas no endereço. “Tem vezes que complementamos com dinheiro de nossos próprios bolsos”, afirma Pedro.

A relação com outros grupos de legenders (nome dado a quem faz legendas na internet) é amistosa, de acordo com Pedro. “Sites e equipes mantêm um laço de colaboração muito grande entre si. E mesmo quando há competição, ela é saudável, buscando fazer o melhor trabalho”. O motivo de tanto empenho e dediação, para Pedro, é simples. “Como todos os legenders, acredito na livre distribuição de conhecimento. Os filmes e séries trazem a possibilidade de aprender e desenvolver um novo idioma, além de ser um ganho cultural para o indivíduo”, explica.

LEI – Todo esse trabalho, porém, esbarra na nossa atual legislação. Segundo a lei nº 9.610, sancionada em fevereiro de 1998, que regulamenta os direitos autorais, para traduzir um livro ou quadrinho é necessária a autorização prévia e expressa de seu autor, E ainda que, a princípio, legendas não sejam protegidas por essa lei, a legendagem de vídeos estrangeiros pode ser interpretada como uma “obra derivada”, ou seja, aquela que surge da transformação de um outra, originária. Mas os tradutores independentes passam, convictamente, por cima dessas regras. 

Raul Nogueira, da “mafia dos livros”, defende que “se não tiver fins lucrativos, o material deve ser distribuído para toda a população”. Segundo ele, isso ”deselitizaria” o acesso à cultura. “Para se ter cultura, precisa ser rico nesse país. Nós somos absolutamente contra o abuso das editoras e autores, por isso distribuímos esses materiais gratuitamente para toda a população”. Já Eurick Dimitri, estudante de artes plásticas, argumenta: “Eu não gosto muito dessa idéia de direitos autorais. Foi uma inveção da modernidade. Mas as pessoas estão abrindo os olhos para as possibilidades do trabalho colaborativo. E eu acho isso muito mais interessante do que essa idéia mesquinha de ‘eu tenho o produto, eu guardo o conhecimento’ ”. Eurick já participou de Jtraduções online de livros de RPG  (Role Playing Game, ou jogo de interpretar). Hoje, ele se dedica à versão em português do livro O Cavaleiro da Rosa Negra, a história romanceada de um personagem de RPG, escrito por James Lowder.

Para definir essa tensão entre legalidade e ilegalidade, Ronaldo Lemos, professor de direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), criou o termo “commons sociais”. “A definição diz respeito a sempre que a propriedade intelectual for irrelevante, desconhecida ou exista um acordo tácito entre as partes para que ela não seja aplicada, como no caso dos ‘dojinshi’ japoneses, mangás (quadrinhos) feitos pelos proprios fãs, que violam a lei, mas os titulares de direito não os processam”, diz Lemos. O professor faz, ainda, outra observação: “O caso da legendagem estaria dentro da área (Commons sociais) em que a propriedade intelectual nao é executavel, pela dificuldade de se encontrar e processar todo mundo. E, em certa medida, ela (a legendagem) seria irrelevante, já que a legenda é algo economicamente pequeno para despertar uma ação de repressão maior e melhor coordenada”.

Em entrevista ao Observatório do Direito à Comunicação em julho de 2008, durante o Fórum Nacional de Direitos Autorais, Marcos Alves da Silva, coordenador-geral desse assunto no Ministério da Cultura ressaltou os limites da legislação vigente. “Nossa lei é uma das mais rígidas do mundo. Ela está extremamente desequilibrada do ponto de vista de quem consome obras protegidas. Direito autoral não é absoluto, está sujeito a limites, como o prazo de proteção. Mas toda legislação autoral tem uma parte que trata das limitações e exceções ao direito autoral, aquelas utilizações de obra que qualquer um pode fazer sem precisar de autorização prévia e sem ter que remunerar os detentores dos direitos. O nosso capítulo de exceções e limitações é muito restrito, ou seja, as nossas exceções estão em desacordo com nossa realidade social, econômica e cultural, tornando a lei rígida para o cidadão comum”.

SOLUÇÕES – Marcos Alves aponta deve haver um maior equilíbro nas relações de direitos autorais. “Nas relações com o usuário, deve haver uma revisão do capítulo de limitações e exceções que as tornem compatíveis com a nossa realidade. Por exemplo, o direito de cópia privada com remuneração eqüitativa, limitações para uso educacional, para pessoas portadoras de necessidades especiais, para bibliotecas, etc. Isso não é rebaixar direitos, é flexibilizar direitos. A gente não está defendendo nada que não exista em outras legislações, apenas achamos que a nossa é muito restrita”, afirma.

Como forma de superar os empecilhos, os autores não devem apenas esperar por mudanças na legislação atual. Desde 2004, os criadores têm a opção licensiar suas obras através de Creative Commons. Essas licensas, idealizadas pelo professor americano de Direito Lawrence Lessig e adaptadas para o Brasil pelo Núcleo de Tecnologia e Sociedade da FGV, especifícam quais direitos os criadores reservam para si e quais liberam aos demais e em quais circustâncias. Têm-se, por exemplo, a opção de permitir ou não o uso comercial dos trabalhos, alterações no original (como as traduções) ou a distribuição para outras pessoas. As licensas podem ser obtidas através do site da organização no Brasil, http://www.creativecommons.org.br.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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6 respostas para “Não somos piratas: somos fãs”

  1. Rafael Sotero disse:

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u463714.shtml

    Notícia sobre a vacina da aids. E nem li o post porque deu preguiça 😛

  2. Andréa Maciel disse:

    Valeu, hein! huahuahuahua! Eu ia até colocar o texto completo no RSS, mas depois dessa… =DDD

  3. aristeu disse:

    Adorei o texto!
    Mas digo logo que você tinha um entrevistado fisicamente mais perto pra falar sobre tradução de scans de HQs =P

    À propósito, olha esta notícia do IDG Now.

    “Brasil poderia arrecadar US$ 390 milhões com redução de 10% em pirataria”

    http://idgnow.uol.com.br/mercado/2008/11/14/brasil-poderia-arrecadar-us-390-milhoes-com-reducao-de-10-em-pirataria/

  4. Andréa Maciel disse:

    aristeu!! vc é tradutor?? e eu fui buscar a fonte lá nos cafundós? rsrrsrsrsrsrs

  5. Andréa Maciel disse:

    comentando o comentário…

    texto do link (sobre pirataria de softwares): “Holleyman afirma que a melhor ação para combater a pirataria no Brasil seria investir na educação, considerando que as suas maiores ações partem de iniciativas das classes mais baixas do País”.

    E eu pergunto a Holleyman: já experimentou baixar o preço dos softwares?

  6. aristeu disse:

    Tradutor de carteira assinada há quase 6 meses huahuahua =P
    E faço parte dessa equipe: http://www.soquadrinhos.com

    Tsc tsc tsc ia ser entrevista exclusiva tá vendo?
    huahuahua

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