Vidas do Capibaribe: o cotidiano de quem tira o sustento das águas do rio

À esquerda, barcos esperando para descarregar o pescado, no Cais de Santa Rita

Barcos esperando para descarregar o pescado, no Cais de Santa Rita

Carabeba. Carapicu. Saramonte. Camurizote. No Cais de Santa Rita, a oferta de peixes é grande. Os tabuleiros dos vendedores disputam espaço das calçadas com os pedestres e com quem espera por seus ônibus. Os ambulantes até tentam, sem muito sucesso, evitar o cheiro desagradável. “É só jogar água, deixar secar e passar sal, pra não ficar fedendo”, explica Charles William da Silva, 19 anos e já um trabalhador, “graças a Deus”. Mas o camarão, a tainha e o bagre parecem fazer questão de exalar sua presença. O que não for vendido no mesmo dia vai para o isopor com gelo e volta no dia seguinte (desde que não seja domingo, quando os vendedores não trabalham).

Um tabuleiro de vendas armado na calçada, também no Cais de Santa Rita

Um tabuleiro de vendas armado na calçada, também no Cais de Santa Rita

A clientela do Cais é fiel. Seu Benedito Gomes da Silva, de 62 anos, liga para sua casa, em Afogados, e dá a boa notícia: “Olha, eu tô com um peixinho novinho aqui. É garajuba!”. A alegria talvez seja por causa do preço bom: Ele diz que gastou R$6,00 e a sacola plástica está cheia. Há dois anos ele compra frutos do mar no Cais. “Tenho que comer peixe por causa da saúde, da dieta”. “Mas o senhor não tem medo do peixe que vem dessa água?” – pergunto, enquanto aponto o rio Capibaribe. Ele diz que não.

Se os vendedores estão ocupados durante toda a manhã e o começo da tarde, acompanhando o fluxo da cidade, o expediente dos pescadores obedece os humores da maré. “Tem dia que a gente sai de casa de 6h da noite. Tem dia que é de 1h da manhã, meia-noite”, diz Seu Manoel Costa Gonçalves, 51 anos, que pesca desde a infância. “Mas já trabalhei também, viu? Agora faz 8 anos que eu estou desempregado. Se tiver um emprego, eu corro daqui na hora”.

Há quem goste de viver do rio. Seu José Cláudio, 51 anos de vida e 35 de pescaria, divide o barco a remo Santa Clara com Seu Manoel. Os dois, além de trabalharem juntos, moram na mesma comunidade, a Ilha do Maruim. “Dá pra ganhar mais que um salário”, diz.”E dá pra se manter?”, pergunto. “Está dando. Melhor do que esses empregos pra ganhar só um salário mínimo”.

Caixa com peixe recém-pescado

Caixa com peixe recém-pescado

Mas a maré não está para peixe. Seu José Cláudio joga a água do Capibaribe no numeroso mas miúdo pescado, do tamanho da palma de uma mão. E reclama “Não costumava dar desses pequeninhos. Eles se criavam tudinho. Mas quando eles soltam o vinhoto na cabeceira do rio, aí desce assim, esse filhotes”. Eles são as usinas canavieiras que margeiam o Capibaribe desde sua cabeceira; o vinhoto é o líquido produzido pela moagem da cana e que, se jogado na água, deixa-a sem oxigênio. A tragédia do rio é também a tragédia dos pescadores. Mas, nessa história, eles também podem ser vilões: é a pesca de arrasto. Nas redes vêm siris pequenos, fêmeas de siris com ovas e peixes que não tiveram tempo de crescer. “Aí a gente mata porque é obrigado a matar. Porque vem dentro da rede, não pode jogar fora”, diz seu José.

“Posso pegar isso aqui?”, pergunta um senhor, interrompendo nossa conversa. É Seu Ednaldo Adrilino de Abreu, 42 anos, que mora em Paulista e trabalha como vigilante em Boa Viagem. Ele desceu a rampa do Cais de Santa Rita e fica perto do rio, de mim e de seu José. Para quê? Para pegar o que sobra, o que os vendores não compram e os pescadores deixam jogados no chão. “É porque eu tenho família grande”, explica. “Se eu encontrasse os peixes boiando, se estivesse tudo poluído, aí eu jamais ia querer comer. Mas assim, ele só está novinho”. Ele pergunta se nós, eu o fotógrafo, somos de outro país. Respondo que não, que estamos fazendo um trabalho para a universidade. “É uma pesquisa?”. “Não, é uma reportagem”. “E isso vai dar em quê futuramente?”. “A gente entrega para o professor”. “É que como os peixes são pequenos, pode ser que o Ibama venha proibir”, diz Seu Adrilino, cauteloso. E continua: “Se pescaemr toda vez desse peixe pequeno, futuramente não vai ter mais peixe”.

Cheguei no Cais de Santa Rita às 8h30 da manhã. É quase o começo do horário comercial mas, para os pescadores, é fim de expediente. Às 9h, Seu Manoel e Seu José Cláudio já se despedem e vão para a Ilha do Maruim. Amanhã, eles voltam ao Recife para descarregar mais uma leva de Pururuquinhas, Carapicus e o que mais vier na rede. Alguns barcos ainda lavam e vendem o pescado, mas em breve também partirão. Enquanto isso, próximo dali, na ponte 12 de Setembro, antiga Ponte Giratória, Seu Durval Francisco da Silva, 48 anos, joga no rio iscas para caçar siri.

Seu Durval Franscisco da Silva, na antiga Ponte Giratória, mostrando os siris que acabou de capturar

Seu Durval Franscisco da Silva, na antiga Ponte Giratória, mostrando os siris que acabou de capturar

Na divisão social dos pescadores, Seu Durval poderia ser chamado de free lancer. “Sou pedreiro. Estou sem serviço, venho pescar. Não posso ficar parado de jeito nenhum”, diz. Ele não tem barco: sai de Camaragibe para Recife com uma bicicleta, uma caixa de plástico e dois jererés, espécie de armadilha para pegar siri e camarão. Os bichos são atraídos para o jereré pelas tripas de galinha amarradas numa corda. Seu Durval desce a corda com o jereré na ponta, com cuidado, até o fundo do rio. Depois de alguns minutos, puxa-o novamente para a superfície. Os siris estão lá, presos na rede, feita de saco de alho ou de cebola. No fim do dia, Seu Durval pega cerca de 50 deles e vende cada um por 20 centavos nas feiras de Casa Amarela e de Camaragibe.

“Antigamente, para encher uma caixa dessas não era meia hora. Agora passa quase o dia todo. É a poluição”, reclama. Mas não foram só os siris que sumiram. “Hoje não tem quase ninguém mais pescando. Antigamente, tinha que chegar cedo para encontrar um lugar aqui na ponte, ali do lado (aponta em direção ao Paço Alfândega). Ficava tudo cheio de gente. O pessoal vê que o peixe não está saindo mais, aí vai para outras coisas”. Ele também reclama do tamanho dos siris, cada vez menores por causa da poluição e da pesca de arrasto.

Mas a conversa pára na hora de puxar o jereré. Vêm com ele cinco siris. “Os muidinhos, a gente solta”. Um deles, um sortudo, volta para para casa, o rio. Já Seu Durval, esse só volta para Camaragibe quando a maré encher.

Reportagem feita para a disciplina de Fotojornalismo

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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