Entre números e rostos

(Artigo para a disciplina Redação Jornalística 3)

Vidas invisíveis: esse é o título do caderno especial que o Jornal do Commercio publicou no último domingo (dia 31 de agosto). O objetivo de João Valadares e Eduardo Machado, jornalistas responsáveis pela iniciativa, era lançar luz sobre a forma “despreocupada” com que os moradores de favelas recifenses observam a morte, o assassinato de seus filhos, vizinhos, amigos – negros e pobres, a massa que entra nas estatísticas policias e nas covas de indigentes. Para os jornalistas, a periferia estaria “vestida de indiferença”.

O motivo? “O absurdo do corriqueiro”. De tanto ver a morte bater suas portas e desovar cadáveres em suas ruas, os moradores das favelas não se preocupariam mais com isso. É chocante imaginar crianças brincando em frente a um corpo inerte, coberto por um lençol – também João Valadares e Eduardo Machado se abismaram com o fato. Mas não consigo deixar de me perguntar se a própria imprensa não trata também assim, com usual indiferença, essas mortes que acontecem longe (ou nem tanto) dos pólos enriquecidos de nossa cidade.

A própria mídia não entrega, em nossas casa – por TVs, rádios e jornais – esses cadáveres como algo absurdamente corriqueiro? Há um mês, vou todos os dias ao Arquivo Público, onde são guardadas cópias de todos os jornais em circulação no Estado. Minha missão é analisar notícias da Folha de Pernambuco, durante seus dez anos de circulação. Nos primeiros dias de pesquisa, era com nojo que eu observava o caderno policial. Enormes fotos ensanguentadas, descrições detalhadas da cena do crime, tudo contribua para revirar meu estômago e tirar meu humor.

Havia um sentimento triste quando eu olhava aquelas matériasa, um luto tardio por todas aquelas pessoas que saiam da vida para entrar numa cova rasa. O mal-estar era muito grande. Eu não sabia como levaria minha pesquisa até o fim. Passadas algumas semanas, porém, eu já não me comovia tanto. Por mais que as fotos e os textos fossem semelhantes, igualmente cor vermelho-sangue, era como se já não doesse em mim ver aquilo. Eu me vesti de indiferença: aquela morte, que já foi vida, era mais uma.

É “fácil” criticar a apatia causada pela Folha, bem conhecida pelo seu caráter sensacionalista. Mas a lógica do “mais um”, que gera a indiferença, está presente mesmo em iniciativas ditas “politicamente corretas”. Um caso notório é o do PE Body Count. O blog, idealizado pelos mesmos jornalistas que produziram o caderno especial Vidas Invisíveis, tem como chamariz um contador virtual de homicídios que é diariamente atualizado através de informações do IML, de hospitais e de delegacias no estado. O intuito era chocar pelo monstruoso número de mortes.

Com o mesmo objetivo, foi instalado, no bairro do Derby, um contador de homicídios em forma de outdoor. Bem abaixo do número de cadáveres, podemos ler a frase “Um protesto permanente pela vida”. Mas a atenção dada a esses mostradores, tanto o virtual quanto o físico, não parece ir além do “corriqueiro”. No site, as mortes viram nomes e datas. Na rua, sobrevivem em algarismos. Dois mil novecentos e um, dois mil novecentos e dois, dois mil novecentos e três… Os números são grandes, mas motoristas e pedestres, cheios de pressa e rotina, parecem indiferentes.

Estar “vestido de indiferença” não é um resultado do “esquecimento” ou “desconhecimento” da classe média nem do “excesso de conhecimento” dos pobres. O que faz com que tantos crimes não nos choquem é a própria desumanidade com que nos são mostrados. A maior parte desses casos nos chegam pela mídia. E se para os moradores das periferias certos mortos são apenas “pacotes”, para a imprensa, são estatística – jogados numa vala comum, sem história, sem vida. A lógica do “mais um” dá de presente às suas vítimas uma segunda morte. Não há comoção frente a um número. Não há indignação por alguém que não se conhece.

A apatia da população desaparece quando as vítimas são da classe média. Mas isso não pode ser encarado como algo natural. Se observarmos, por exemplo, a cobertura midiática dos casos Maria Eduarda e Tarsila ou Isabela Nardoni, notamos um ponto em comum: as vítimas foram tratadas como pessoas singulares. Soubemos o que faziam da vida, ouvimos seus parentes, vimos fotos suas em momentos felizes. Ainda que seja abusiva a atenção da imprensa a esses crimes, não podemos negar que, ao fim, todos sentimos que as conhecíamos. Elas não foram tratadas numericamente como “mais um”.

Na imprensa, os números são dados aos invisíveis. Exterminados. São jovens pobres, negros, moradores de favelas. São os que rendem fotos ensanguentadas e notas nos caderno policiais. Como Alberto da Silva, na poesia de Ferreira Gullar:

Não foi nada de mais, claro, o que aconteceu:

apenas um homem, igual aos outros, que morreu

Que nos importa agora se quando menino

O seu grande sonho foi tocar violino?

Que nos importa agora quando o vamos enterrar

se ele não teve sequer tempo de namorar?

Que nos importa agora quando tudo está findo

se um dia ele achou que o mar estava lindo?

(…) Enfim este é o morto:

um anônimo brasileiro

(…) de quem nesta oportunidade

damos notícia à cidade”.

E nós, que notícia vamos dar? Mostramos o humano por trás das porcentagens, os rostos que sustentam as estatísticas ou nos contentamos em promover a letargia?

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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