Contos de Matusalém

Acordei sozinha, abraçada por lençóis amarelos e tomada da sensação de soletude. Não é exatamente solidão – que, de tão melancólica, parece uma palavra que já nasceu triste. Não era isso o que eu sentia. A soletude deve ser algo entre o medo, o estranhamento e a alegria de ver uma largatixa listada. (Eu já estive naquele quarto outras vezes, através de janelas bem limitadoras, culpa de minha lenta conexão à internet. Webcams não são recomendáveis para vermos quartos e pessoas – são “band-aids” contra a saudade, enfim).

Acordei sozinha e muito mais cedo do que ocorre normalmente. Soletude à parte, levantei e procurei o que fazer. Muito cedo ainda para apresentar meu rosto aos familiares. Se a primeira impressão é a que fica, não deixaria como cartão de visitas um rosto amassado pelo travesseiro. No quarto, não há um espelho para eu ver meu cabelos! Há caixas, livros, caixas, roupas, caixas, sapatos, caixas, colchão, caixas. Organização típica de momentos pré-mudança, desordem ordenada, cara de “vir a ser”.

Dobrei os lençóis. Refiz a cama. Tirei as roupas emprestadas. Vesti-me novamente com o figurino da noite anterior. Tentei dar uma imaginária ordem aos meus cabelos. Olhei mais atentamente a estante de livros. Peguei o celular no chão. Vi as horas e o pus no bolso. 08:00. O moço nem deve ter conversado direito com os pais ainda. Casa dos pais é mesmo assim, nada de convidados-surpresa. E estão certos. Mas parece que eu já os conheço. Eles devem estar guardados em qualquer coisa do jeito do meu anfitrão, nos olhos, talvez, ou na forma de ele falar “estresse”. É bom esquecer isso quando os vir. Era capaz de eu dar um grande abraço neles, um abraço por eles incompreendido, mas que seria minha expressão de carinho, de gratidão. Meu gostar osmótico.

Em pé, em frente à porta. Depois de ver o mal tempo através da janela, e de ouvir muitos passarinhos e pouca voz de gente, pego novamente meu celular. 08:10. Nunca dez minutos demoraram tanto a passar. Já não há mais o que observar no quarto. Precisava de rostos. Entreabro a porta e observo a sala através de um espelho que parece ter sido estrategicamente pendurado à parede para fins de espionagem. Por ele, eu vi um pedaço de cabeça com cabelos brancos. Parecia curvada para baixo. Barulho leve, um folheio de jornal. E nada de eu ver o moço, meu anfitrião, que me cedeu sua cama e foi dormir no sofá. 08:12! Decidi que 8h30 era um bom momento para sair daquele (in)cômodo. Esperei em pé mesmo, ainda em frente à saída, observando o mundo extra-quarto pela pequena fresta que fiz ao quase abrir a porta.

O moço podia aparecer a qualquer momento. Não apareceu. Eu podia ligar para ele, dizendo que eu estava acordada. Mas o celular dele estava na estante, eu tive tempo suficiente para ver isso. Talvez fosse bom ligar, então, para o número residencial mesmo. E se o pai dele atendesse? Alô, aqui é Andréa, eu estou no cômodo ao lado! Uma mudez também não seria menos constrangedora. Sem soluções à vista. 08:15. E como demoram as soluções à prazo!

Napoleão ganhou e perdeu a Coroa francesa. Penélope já perdeu a conta das vezes que recomeçou a costurar. Um bicho-preguiça percorreu os 42km de uma maratona. E ainda eram 08:25. Sabe o que eu falei alguns parágrafos atrás, sobre nunca 10 minutos terem demorado tanto a passar? Reconsiderem. Aqueles 10 minutos ficaram em segundo lugar. Contem até um milhão, ida e volta, e tenham paciência.

Tenham vocês paciência, porque eu não tive. 08:29. Abri a porta. Fiquei ainda estática, como se tivesse visto algo assustador, como se esperasse alguém para eu dizer “com licença”. Nada. Se o mundo tivesse desabado sobre mim, eu saberia como agir, mas o silêncio e o vazio me dão medo. Primeiro passo para fora da minha bolha. Segundo passo. Terceiro. Olho para a esquerda, avisto um possível perigo à paisana, com aparentemente inofensivos cabelos brancos. Já sem um jornal à mão, vê, de pé, uma missa pela TV. O medo do meu rosto se defendeu com as únicas armas possíveis:

– (Um sorriso) Olá, bom dia! Eu sou Andréa.
– (Outro sorriso) Bom dia. Vamos sentar? Eu vou chamar D.

Um suspiro e o mundo voltou a girar.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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