Reticências

Para algumas pessoas a gente olha silenciosamente. Com o moço foi mais ou menos assim. Eu tinha motivos para o pudor: a sua porta tinha um antigo cadeado à vista. Talvez por não ter tido um relacionamento feliz, eu olhe para todos os casais com um misto de cuidado e admiração. Deve ter sido esse o meu olhar naquela tarde, uma atenção que eu julguei impune. E eu, que adoro observar o mundo, ficaria encabulada se soubesse que me retribuia o olhar.

 

Cheio de gentilezas e sorrisos… Sorrisos que eu não via, traduzidos em letras – esses males do contato orkutiano. E percebendo sem perceber que o moço sempre, sempre me escrevia, quis testá-lo sob a capa da academicismo: o esperei em um lançamento de livro. Eu sei que, no fundo, isso poderia não significar muita coisa – afinal, livrarias são abertas ao público – mas era como se ele estivesse ali por causa de mim, ou era assim que eu gostava de imaginar. Esses meus pensamentos soltos, imaginação-pluma, são o que me equilibra em sanidade – tenho minhas ilusões de estimação. Nessa noite do lançamento, eu me apaguei a essa e o medo de que ela se desmanchasse me impediu de me aproximar dele com qualquer coisa que não fosse uma polidez excessiva, que eu tentava desmoronar com o vinho branco que me serviam.

 

Bobamente feliz, com minha ilusão bem guardada, o chamei para nos acompanhar (eu e meus bons amigos), me acompanhar a qualquer lugar. Eis o segundo teste: ele iria, iria para onde eu fosse? Mas também esse não queria dizer muita coisa, que o moço poderia estar atrás também de qualquer uma das meninas presentes – e, por que não? até de algum dos meninos – ou ainda buscasse apenas qualquer distração. É interessante como meus testes mentais são também ilusões de estimação. Em qualquer um deles, tanto o sim quanto o não me deixaria confortada. Eu já o tinha desculpado internamente: claro que ele não vai! Ele estagia de manhã bem cedo… Mas ele foi.

 

Ele foi! Estava ali, ouvindo gritos loucos de exaltação às matinês do cinema Olympia. Em pouco tempo, já era íntimo de Mauro e de tantas outras histórias daquele grupo de bons amigos. Na taberna, eu, ainda tonta do vinho da livraria, saí da cadeira alta e me sentei no sofá. Dava para olhá-lo fugitivamente. E como ele não tentava se aproximar de mim, eu pensava nas primeiras palavras que ele diria quando me pudesse falar a sós. Ele começaria dizendo que ela, a outra, terminou o relacionamento com ele e ele ainda tentava convencê-la a mudar de idéia – insistências de que muito gosta. Era o momento em que minha imaginação dizia “Ok, Andréa, está na hora do choque de realidade”. Mas mesmo a realidade me vinha por pensamentos – coisas da timidez, que se esconde tão bem nas multidões. Ali eu era isso, multidão. Eu o via através de um “nós todos”.

 

Fim da noite – ou “fim da linha”, que era como eu via aquele não-encontro com o moço. Àquela hora, eu já tinha assassinado todas as minhas esperanças e sonhos vagos. Melhor assim. Eu já tinha vivido em mim, absorta em pensamentos, a alegria de encontrá-lo e a dor de perdê-lo no “quase”. A noite acabou no quase, pensava, e um pouco impaciente, queria que terminasse logo de uma vez – sou a favor da eutanásia e de um fim menos doloroso aos pacientes terminais. Já estava doendo o fim do que não começara, então fui andando à frente, como quem anda orgulhosamente para o cadafalso, deixando abismado o carrasco. Era o perfeito final. Que seria o fim, se ele não tivesse me acordado do sonho bruscamente, me puxando pela bolsa, me fazendo olhar para trás. E ele estava lá, me olhando por detrás dos óculos. Não falou nada além de um “ei”. E foi tudo. Foi o não-fim, os três pontinhos. Foi ele que me deu uma chance e nem percebeu. Ele reescreveu o final da história que, fosse qual fosse, não seria aquele.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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