Memórias viajantes: Bélgica (parte 2)

Segunda noite em Antuérpia. Noite de despedida para os hóspedes do casarão – eu, Paula e os americanos. Nossos anfitriões nos convidaram para um recital poético em um bar. Cruzamos a cidadezinha à pé, comentando sobre as belíssimas e estranhas casas verdadeiramente Art Nouveau, hoje novamente habitadas pela elite. Há pouco tempo, estavam abandonadas, relegadas ao limbo por causa da arquitetura modernista. Idiotice. As casas parecem saidas de contos infantis, feitas dos mais deliciosos doces, habitadas por avós carinhosas e crianças que não têm medo de descer pelo corrimão tortuoso.

O bar do recital não tinha esse aspecto, mas era aconchegante e pequeno. Com fotografias amareladas pela parede, parecia, como tudo em Antuérpia, o registro de um tempo que já não existe, como a teimosia de alguém que ousou parar enquanto o tempo corria. Sentamos em mesas altas, compondo o cenário do pequeno público presente. Brindamos com mais cervejas belgas e esperamos o recital.

 

Se você ainda lembra, todos aqui falam holandês. É isso: o recital será em holandês. Nada me parecia mais insólito e divertido. Eu teria que me ater à completa sonoridade da poesia, esquecendo qualquer sentido que pudesse haver nas palavras. Será música. Música e dança, que nenhum declamador se expressa só pelo tom de voz. Eu estava ansiosa para ver seus gestos e movimentos.

 

Mas o primeiro declamador está com um livro de Fernando Pessoa na mão e eu reconheci o desenho do autor mesmo à distância. “This one I know”, disse. E foi o suficiente para que, em pouco tempo, todos no lugar soubessem que estavam ali falantes de português. Dali para eu subir no palco e declamar Pessoa foi um salto – e um assalto à minha enorme timidez. De repente, eu estava lá, embaixadora de uma língua, representante de uma Lusitânia que eu odiava e que, ao mesmo tempo, faz tanto parte de mim. Não tinha como não ser lindo. Não tinha como não ser aquilo, poesia.

 

O poema já tinha sido escolhido pelo declamador belga. Como o seu Pessoa era bilíngue, faríamos assim: eu leria o poeminha primeiro, em português, e ele depois, em holandês. Ao abrir o livro, a surpresa: eram os versos que Rafael, meses atrás, escrevera para mim, na minha despedida do Brasil. “Sê todo em cada coisa”. E me tomou uma vontade de sorrir. Eu me lembrei daquela despedida, das minhas últimas 24 horas no Brasil, daqueles amigos queridos que estavam comigo, de toda a saudade que me toma agora outra vez, quando lembro dessas coisas – agora uma saudade trocada, uma saudade da saudade que eu senti.

 

Peguei o microfone e declamei, como se a minha vida dependesse daqueles versos – e dependia. Ninguém me entendeu, além de Paula, claro – mas eu, no momento, não sabia se ela me entendia mesmo em alguma coisa, tão diferentes que somos – o que eu só descobri depois daquela viagem. Ninguém me entendia, mas eu olhava para cada um ali enquanto falava, olhava para o livro e olhava para as pessoas, seus olhos, sua curiosidade, sua admiração pelo belo no desconhecido. E no final, me aplaudiram, aplaudiram um idioma que eles não sabem, aplaudiram palavras que não fazem sentido. Mas era Pessoa, e era uma pessoa que os entregava Pessoa sem tradutores.

 

“I was very shy, wasn’t I?”, perguntei, já de volta à mesa. “No. You were very authentic”, foi o que Remi respondeu. Ironia brutal, a minha pátria foi a língua portuguesa – a língua portuguesa em Antuérpia e com cheiro de cerveja belga.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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