Memórias viajantes: Bélgica (parte 1)

O nome da cidade é Antuérpia. Até pouco antes de chegar lá, para mim significava apenas o penúltimo suspiro viajante antes de voltar a Lisboa. Em pouco menos de 15 dias eu havia passado por cinco cidades, vivido algumas das experiências que, certamente, foram das mais loucas e lindas da minha vida (sem nem precisar fumar maconha na Holanda). Antuérpia seria só o fim disso tudo o que vivi – e como nada sabia sobre a cidade, também nada esperava.

 

Chegando à casa em que ficaríamos hospedadas eu e Paula, minha companheira nessa viagem… Pausa. A única palavra que me vem para descrever essa hora é “alumbramento”. Era um casarão antigo numa antiga zona nobre da cidade. Estilo neoclássico por fora, meio Art Nouveau por dentro. O hall escuro, estreito, empoeirado e sem móveis dava um aspecto de lugar abandonado. Uma escadaria que parecia infinita nos levava para o quarto em que dormiríamos, no segundo andar.

 

A noite sempre esconde os detalhes das moradias, mas aquele lugar era bonito demais para conseguir se esconder. Papeis de parede, lareiras, cortinas carmim e douradas que conseguiam ir do teto até o chão, cobrindo por completo as enormes janelas – retrato de outros tempos. A cozinha, no térreo, era ampla, tão grande que nela tomaram café da manhã sete pessoas e ainda havia cadeiras vagas ao redor da mesa. E, dessa mesa, conseguíamos ver um jardim de inverno nos fundos da casa e a magífica sala de estar, o mais belo cômodo daquele lugar e que nenhuma descrição ou foto conseguiria dar conta: basta dizer que foi toda decorada pelo último morador daquele espaço, um vendedor de tecidos e tapetes orientais.

 

Parecia incrível que alguém morasse naquele casarão impossível. E parecia mais incrível ainda que eu, naquele momento, dividisse com seus moradores aquele teto, aquele incrível teto decorado, com papeis de parede antigos e móveis de museu. Eu poderia, sem problemas, passar meus dias em Antuérpia trancada naquele espaço. Mas não passei, claro.

 

Logo na nossa primeira noite, fomos a um festival chamado O Fogo do Inverno. Fico devendo o nome original, em holandês – que é o idioma oficial de toda aquela região belga. Logo na entrada, chamas enormes. Todo o espaço era iluminado e aquecido com essas labaredas altas que davam nome ao festival. Mas, como pedia o frio inverno, todas as atrações estavam escondidas em locais fechados, enormes lonas de circo bem aquecidas. As entradas dessas lonas eram portas que se moviam facilmente tanto para frente quanto para trás – lembravam as de boteco de faroeste. Parecíamos perdidos numa quermesse de caubóis, índios e mocinhas.

 

Entramos em uma das tendas. Com todas as instruções da entrada escritas em holandês, era óbvio que não sabíamos o que lá havia, mas tanta gente se dirigia para lá que devia ser algo interessante. Na entrada, homens para um lado, mulheres para um outro – mera formalidade, já que, no espaço interno, ficariam todos juntos e em pé. No palco, um velho que cobria os cabelos brancos com uma cartola e usava um fraque de domador de leões. Havia um outro senhor ao piano sem cauda, igualmente vestido à moda circense. Me senti em um teatro antigo – aquela multidão espremida não deveria ser muito diferente das que lotavam teatros elisabetanos.

 

O senhor de cartola falava ao público. O quê? Eu nunca vou saber, mas gerava risos – risos contagiosos. Em pouco tempo eu já ria também, não precisava entender nada. Pouco tempo depois, o apresentador se dirigiu ao lado esquerdo de quem vê o palco, para perto do pianista. Ele saiu da frente para que víssemos, no telão, cenas em preto e branco. É injusto chamar o filme de mudo, já que era musicado pelo piano e comentado, no mesmo instante, pelo apresentador de cartola. Assistíamos todos a um velho filme pornô! Na verdade, eram vários curtas pornôs que, de tão antigos, pareciam ingênuos e engraçados – uma das histórias era a de um homem que se casou com uma moça desdentada e só descobre isso na noite de núpcias. Ríamos todos juntos, em português, holandês ou qualquer outro idioma.

 

Depois da sessão, fomos à outra tenda, em que havia mesas para quem fosse bebericar. Uma espécie de banda marcial, com músicos pintados de palhaço, andava por entre os corredores. Dentro, a continuação do chão de terra do lado de fora. O bar era um tosco e charmosos alto balcão de madeira. A minha companhia à mesa eram dois americanos, um francês, dois belgas e Paula. Tudo parecia fantástico, e era. Brindamos com Könning, cerveja belga. E, suficientemente aquecidos, fomos para a área externa e nos sentamos em toras de madeira próximas a um enorme círculo de fogo, uma espécie de miniatura de roda gigante em chamas – desculpem a paradoxa descrição. “The ring of fire”, disse Remi, o francês do grupo, nosso anfitrião, fã de Johnny Cash.

No outro dia, logo pela manhã, passeamos eu e Paula pela cidade – frias obrigações turísticas de olhar os prédios, observar as pessoas e comer waffles. Era pouco tempo para sentir a cidade, mas Antuérpia se entregava nas pequenas coisas. Havia crianças brincando perto de estátuas monumentais e modernas. Velhos castelos de pedra enfeitavam a margem do rio. As lojas para turistas eram enfeitadas com pôsters de Tintim, bom cidadão belga. Qualquer café tinha um cardápio farto de chocolates. Numa área nova e comercial da cidade, uma exótica marca de presença brasileira: a Igreja Universal do Reino de Deus (“Jesus Christ is the Lord – Helpcentre”).

 

(Desculpem-me a aparente desordem com que essas memórias surgem no texto. Foi bem essa a forma como tudo isso me apareceu e me tocou. Muitas coisas para um único dia. Eu já estava satisfeita, já amava Antuérpia de alguma forma. Mas o melhor, minha segunda e última noite lá, eu deixarei para o próximo texto, que esse já está enorme.)

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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3 respostas para Memórias viajantes: Bélgica (parte 1)

  1. Diogo disse:

    Disse que ia fazer o comentário e aqui está! Sou seu fã e adorei como você contou essa primeira parte da história (que está sem desordem, aliás), com direito até a suspense no final 😛

    Dá muita vontade de ir pra lá tb.

    Mas uma coisa me inquietou: “as lojas para turistas eram enfeitadas com pôsters de Tintim, bom cidadão belga.” Putz, é tudo que vc tem a falar sobre esse grande jornalista que se dedica tanto para conseguir uma boa história?

    Ah, fala sério! 😛

    Pior que isso só o “fixe” que eu falei ontem sem querer! UHuhauhauauha Beijos

  2. Andréa disse:

    e foi sem querer? eu pensei q fosse só pra me provocar!! =D

    pois bem, vou deixar essa tarefa pra vc… discorra um pouco mais sobre Tintim, esse grande jornalista q se dedica tanto para conseguir uma boa história… q tal uma ode a Tintim?! ^^

    por sinal, mudando de assunto, já escolheu o livro q vai me emprestar?

    Beijos!

  3. Pingback: A beleza do que foi | Libertango

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