oLfato

Falarei sobre Lisboa. Para quem teve algum contato comigo desde a minha volta, essa opção deve parecer estranha. Não, não vou repetir tudo o que vocês já ouviram. Nada sobre problemas burocráticos e diplomáticos. Esqueçam meus comentários sobre a universidade. Esqueçam até mesmo o sotaque semi-compreensível. Pensem numa cidade como uma essência, como um cheiro, numa Lisboa que significa, necessariamente. presença, instante. Como eu só quero o impossível, vou tentar guardar essas memórias olfativas.

Havia qualquer coisa de mágica na minha rua, mas só durante o outono, só em determinadas horas do dia. A minha rua cheirava a Dama da Noite. Na verdade, não toda rua, mas só aquela esquina. Uma casa escondida por um muro enorme. E a flor só existia quando eu fechava os olhos. Fechava os olhos enquanto andava pela calçada. Alguns passos e eu já não conseguiria mais senti-la. Mas sempre que voltava da universidade, aquele aroma me dava as boas-vindas. Cheiro de outono.

Alguns poucos dias, a peixeira abriu seu tabuleiro ao lado do meu prédio, exatamente embaixo da minha janela. A peixeira ali se escondia para mostrar seus produtos. Eu sentia isso logo quando acordava, aroma de mercado público. Mas porque vender peixes no bairro do Lumiar? Lá nunca parecia ter gente. Silêncio de morte. O único som freqüente era o dos freios de carros – aquele tipo de barulho que a gente presta atenção, maquiavelicamente esperando ouvir uma batida no final. A peixeira era tão silenciosa quanto seu público. Sem pregões, sem aqueles slogans populares que, em Recife, a gente ouve em todos os lugares. Ela não tinha voz, só cheiro.

O grande problema da memória olfativa é que ela não existe por si. Nenhum aroma parece ter vida própria. A fumaça de cigarro me lembrará qualquer lugar fechado, mas especialmente as tascas (botecos) do Bairro Alto, o Recife Antigo lisboeta. Odor de óleo parece o refeitório da universidade. Temperos indescritíveis são os supermercados chineses no Martin Muniz, bairro de imigrantes. Cheiro asséptico é do aeroporto, como qualquer outro aeroporto no mundo. E, mesmo assim, ainda é o aroma que mais lembranças me traz. Mas falo sobre isso em outro momento.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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3 respostas para oLfato

  1. Rafael Sotero disse:

    Falalarar. Verbo novo? 😛

    Falalarasse do cheiro das coisas. Mas e os tugas? Eles matam pelo cheiro?

    ps: memória olfativa é a tua cara 😛

  2. Andréa disse:

    Pois é, Rafael! É pq recifensefalalala cantando! ^^ (Já corrigi!)

    Os tugas n matam pelo cheiro… Quem faz isso são os franceses. =P

  3. Rafael Sotero disse:

    sei lá, peixe e bigodes nunca me pareceram uma combinação cheirosa! 😛

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