A Palavra Mágica

Tanto tempo sem escrever… A ponto de quase terminar minhas experiências em terras portuguesas e quase não falar sobre isso. Talvez ainda não seja a hora, como se tudo o que vivi precisa maturar na mente, decantar e, só depois, pudesse ser visto plenamente (grande ilusão romântica).

Mas, para reviver um pouco desse espaço, deixo um texto que fiz para a universidade. Perdoem-me o academicismo.

Reflexão baseada no conto A Palavra Mágica, de Virgílio Ferreira

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
(Manuel Bandeira)

 

“Eu sou uma espoleta!”, repetia feliz Carina, minha colega portuguesa. Tinha dançado a noite toda. Mas como, mesmo assim, parecia ser a única do grupo com energia para ainda muitas horas, assim a chamei: “você é uma espoleta!”. Ela não sabia o que isso queria dizer, mas como foi falado entre sorrisos e em tom amigável, estava claro que não era nada de mal. Na curiosidade, ela quis saber o significado. Disse que espoleta é alguém animado, incansável. Pelo menos, era assim que eu entendia.

Espoleta, para mim, também tem cheiro de infância. É assim que, em Recife (e falo só pela minha cidade) chamamos o revólver de brinquedo barulhento, que assusta vizinhos e passarinhos. Era carregar a “arma” e apertar o gatilho. Nenhum projéctil no ar, só um estouro estrondoso e o odor de pólvora.

Mas não adianta procurar por esse sentidos no dicionário. No de Língua Portuguesa On-line, da Priberam, está assim:

do Fr. espolette

s.f.,

escovar das bocas de fogo;

artefacto de metal ou madeira destinado a inflamar a carga de projécteis ocos.

Nenhuma referência a comportamento ou brinquedo de criança.

Saber como a francesa espolette tornou-se a brasileira (animada e barulhenta) espoleta é algo que não está em minhas mãos. Mas o percurso do significado, provavelmente, lembraria o trajecto (nada inofensivo) do termo inócuo, no conto A Palavra Mágica, de Virgílio Ferreira, uma alegoria da construção dialógica dos sentidos.

– (…) Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim das contas. Um inócuo é o que você é. (p.56)

Nem Silvestre (o alvo do insulto) nem Ramos (o enunciador da frase) sabiam o significado exacto de inócuo (ou inoque e noque, como aparcerá na história posteriormente). Mas por se dita durante uma discussão, a palavra torna-se carregada de sentidos negativos, fossem eles quais fossem. Quem ouviu o termo durante a briga, interpretou-o a partir desse contexto e assim repassou aos demais. Inócuo variará durante todo o conto, de acordo com a situação em que está inserido e, também, da classe social do falante, sendo um exemplo evidente da construção dialógica do sentido.

(…) quer o falante na sua individualidade quer o respectivo discurso são concebidos não isoladamente mas em contexto e em relação e ambos são encarados como ocupando um lugar único e irrepetível, historicamente determinado pelas coordenadas espácio-temporais (cronótopo) que, em cada momento, o definem. (FERNANDES, internet)


O fato de o termo surgir na história porque Ramos o viu em um folhetim deixa clara uma outra característica da construção dialógica do sentido: ele não se faz exclusivamente através da fala. Diálogos também são estabelecidos entre leitores e textos. Portanto, além de podermos identificar os diversos significados de inócuo durante o conto, também nós, os leitores, estabelecemos uma “conversa” com o texto; enxergamo-lo enquadrado a partir de nosso próprio repertório.

O próprio humano é um intertexto, não existe isolado, sua experiência de vida se tece, entrecruza-se e interpenetra com o outro. Pensar em relação dialógica é remeter a um outro princípio — a não autonomia do discurso. As palavras de um falante estão sempre e inevitavelmente atravessadas pelas palavras do outro: o discurso elaborado pelo falante se constitui também do discurso do outro que o atravessa, condicionando o discurso do eu. (Lukianchuki, 2001, internet)

O diálogo, portanto, é característico da própria linguagem. Mas o texto de Virgílio Ferreira ainda lança luz sobre outra questão: a da “estratificação” da linguagem. Enquanto, nas ruas do conto, inócuo surge com os mais diversos sentidos, no dicionário não será possível descrever toda essa diversidade . Podermos, de certa forma, comparar o dicionário uma fotografia: mostra os sentidos a partir de um recorte (ou enquadramento) de um universo mais amplo e “revive um morto” (BARTHES, 1966), ou seja, mostra os sentidos estanques, em um determinado momento específico e que não se repete. Além disso, é interessante que o sentido dicionarizado de inócuo surja, no conto, da boca de um juiz:

– (…) «Inócuo» é «inofensivo», até nova ordem. (p.61)

O dicionário, para além de uma descrição de significados, aparece como normatizador, um regulador da própria linguagem.

O juiz-dicionário, porém, encontra um veredicto não muito favorável a suas normas, Ao filho do Gomes e à minha amiga portuguesa “espoleta” pouco importaria que o dicionário os chame de “inofensivo” ou “artefacto destinado a inflamar a carga de projécteis ocos”.

Toda a gente conhecia já a opinião do dicionário. Mas o furor era sempre mais forte do que um simples livro impresso. (p. 62)

O filho do Gomes ficou sem dormir, pensando em como melhor “esborrachar” o colega. A Carina continuou a dançar. Sem emendar a vida pelo dicionário, mas a meter a linguagem na pele.


REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. A câmara clara. Lisboa, Edições 70, 1989 (1966).

Fernandes, Isabel. Dialogismo. In: Ceia, Carlo. E-Dicionário de termos literários. Disponível em: <http://www.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/D/dialogismo.htm>. Acesso em: 16 Dez 2007.

FERREIRA, Virgílio. A palavra mágica. In: _____. Contos. Lisboa, Bertrand, 2003, p. 55-62.

Lukianchuki, Cláudia. Dialogismo: A linguagem verbal como exercício do social. Revista Sinergia, São Paulo, v. 2, n. 1, 2001. Disponível em: <http://www.cefetsp.br/edu/sinergia/claudia2.html>. Acesso em: 16 Dez 2007.

PRIBERAM. Língua Portuguesa On-line. Disponível em: . Acesso em: 16 Dez 2007.

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Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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Uma resposta para A Palavra Mágica

  1. tempodemorangos disse:

    Meu deus, que ótimo texto! Eu acho muito bacana essas análises de discurso e interferências sofridas por elementos como o contexto, os leitores, enunciadores, objetivos, etc. 🙂

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