Praça do Diário

Cotidiano e poesia no centro do Recife

José Carlos Pereira, 49 anos, descansa. Ele é comerciante em Gravatá. Uma vez por ano, quando está no Recife a negócios, vai à praça da Independência, a “pracinha do Diário”. “Eu não gosto da cidade. Prefiro o interior. Mas da praça eu gosto. É bem animada, né?”.

É, sim. Principalmente ao meio-dia. A sombra das árvores e a água da fonte dão ao lugar uma aparência de oásis. Um Édem barulhento e movimentado, é verdade. Carros, motos, ônibus, bicicletas, alto-falantes, pedestres, vendedores ambulantes. O movimento não pára, mas sempre se consegue repousar nos bancos enquanto não dá a hora de ir para casa ou voltar ao trabalho.

João Inácio da Silva, 72 anos, veio à cidade pagar contas para a filha. “É que eu tenho o cartão do idoso e não pago passagem”. Pequenas economias. Mas o que ele gosta mesmo de fazer é ficar na praça. É melhor até do que ver avião no aeroporto e andar de metrô. “Eu sempre vejo um conhecido. Aí eu peço um real, dois ‘real’, almoço e fico por aqui mais um pouquinho”. “Eu sou uma pessoa que fica muito preocupado, dona moça. Isso não vai me prejudicar em nada não, né?”

Talvez a grande preocupação de seu João seja por causa da “fama” do local. Se, para alguns, a pracinha é um lugar de muita vida, para outros, é um ambiente de “mulheres da vida”. E elas estão lá, sim, mas não queirem dar entrevistas. Talvez a fama tenha subido à cabeça. Ou isso seja reflexo do aparente bom-dia. Uma delas deixa escapar: “A praça hoje está cheia de homem. Mas vamos vê se eles querem mesmo…”.

Mas não é a prostituição o que mais preocupa o Cabo Franco, responsável pelo policiamento do lugar. “Algumas dessas meninas são ladras. A gente sabe quem são, mas não pode prender, porque não temos o flagrante. Mas elas chegam perto dos senhores se oferecendo, mas querem, na verdade, roubar. Já aconteceu uma dessas hoje”.

E também não preocupa Noêmia Alves, 40 anos. Ela conta que algumas pessoas conhecidas a vêem na praça e passam sem falar. “Pensam que todo mundo aqui não presta. Dizem que é lugar de ‘mulher sozinha’. Mas eu não acho que é. Ninguém transa no meio da praça.”. Dona Noêmia aproveita para distribuir os restos de seu almoço com os pombos.

“Trinta homens sentados. Trezentos desejos presos. Trinta mil sonhos frustrados”, poderia dizer Carlos Pena Filho ao ver a praça lotada. Mas a sua estátua olha petrificada para a igreja de Santo Antônio. Um poema de Audálio Alves, exposto para ninguém, gravado em azulejos, tenta definir o lugar. “Quem no Recife chegar à Praça da Independência não pergunte onde é que foi o sacrifício do homem. Pergunte onde é que vive a solidão do menino”.

São anônimos os bustos de Chateaubriand, Antônio Camelo e Estácio de Coimbra. Dona Noêmia não sabe quem são, mas aponta com alegria para Sandra Gurgel, uma amiga “da praça”. Para elas, não interessa se ali já torturaram escravos ou se o lugar foi construído pelos holandeses. “Aqui é bom. A gente conversa, conhece as pessoas, faz bons amigos”.

Sobre Andréa Maciel

Paulista nordestina naturalizada recifense e entendedora do português lusitano. Estuda Comunicação Social - e adora a comunicação justamente por isso, porque é Social. Acredita em um mundo mais bonito. Acredita em todas as belezas.
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2 respostas para Praça do Diário

  1. izabel disse:

    E eu que passou sempre por lá e nunca me dei conta?

  2. asadebaratatorta disse:

    haha! Eu tenho esse texto! ^^

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