Poesia paulistana

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Carta

Esse texto eu achei sem querer, durante meus estudos solitários das tardes longas, longuíssimas – que são ainda mais longas porque, em São Paulo, o sol demora a se pôr (resquícios do verão).  Coloco aqui, para ver se me obrigo a escrever por aqui e para lembrar de ver poesia nas coisas.

CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

(Carlos Drummond de Andrade.  Lição de coisas. In:Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 332)

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De passagem

Não há como não comparar essa ida a SP e a minha temporada lusitana. Ok, é por bem menos tempo… Ok, é para bem mais perto… Mas mudanças de rumo, chacoalhadas no caminho, ainda que temporárias (o que não o é?), têm  capacidade de me alegrar.

Não há expectativas, além de todas e nenhuma. Deixo-me fechar os olhos para ver melhor, e, nesses dias, olho para mim, para dentro da alma (se ela existir), para o que eu quero conquistar, o que quero ser, o que preciso fazer, o que preciso apenas olhar.

Em ambos os momentos – em 2007 e agora – eu me abri completamente ao nada e ao tudo, à beleza da incerteza. Quando voltei de Lisboa, tudo o que eu quis por tanto tempo – voltar e ficar com alguém que demonstrou a todo instante que não me queria – pareceu pequeno. E, depois da volta e da constatação, vivi outras tantas experiências: encontrei outra pessoa que me fez muito feliz, revivi o jornalismo na minha trajetória, comecei a trabalhar, fiz, desfiz e refiz amizades e princípios.

O erro, talvez, foi ter achado que pararia por aí. O que me fez pensar que duraria para sempre? Alegria, talvez. Foi tão bom que quis eternidade. A perda do “para sempre” me deixou sem rumo. Mas isso já não é algo que me machuca. Não ter onde ir é poder ir a todos os lugares – diante mão sabendo que, por onde quer que eu ande e por mais que me sinta em casa, vai chegar o momento em que serei estrangeira.

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Eu

No meu primeiro Tango, eu assinava os texto com a frase: “A culpa é de Andréa”. O tempo passa; a culpa fica, e faz ainda mais sentido. Minha culpa, minha máxima culpa.

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91

Era na velha Bíblia de capa preta e pontas douradas – bonita, cheia de imagens de paraísos pintados que eu folheava na infância – que minha mãe lia de manhã o salmo 91, lia nas folhas amareladas por estarem sempre expostas à luz e à poeira, páginas sempre abertas só para minha mãe dizer todas as manhãs

Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo,
que moras à sombra do Onipotente,
dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela,
meu Deus, em que eu confio.
É ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com suas plumas,
sob suas asas encontrarás refúgio.
Sua fidelidade te será um escudo de proteção.
Tu não temerás os terrores noturnos,
nem a flecha que voa à luz do dia,
nem a peste que se propaga nas trevas,
nem o mal que grassa ao meio-dia.
Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita,
tu não serás atingido.
Porém verás com teus próprios olhos,
contemplarás o castigo dos pecadores,
porque o Senhor é teu refúgio.
Escolheste, por asilo, o Altíssimo.
Nenhum mal te atingirá,
nenhum flagelo chegará à tua tenda,
porque aos seus anjos ele mandou
que te guardem em todos os teus caminhos.
Eles te sustentarão em suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra.
Sobre serpente e víbora andarás,
calcarás aos pés o leão e o dragão.
Pois que se uniu a mim, eu o livrarei;
e o protegerei, pois conhece o meu nome.
Quando me invocar, eu o atenderei;
na tribulação estarei com ele.
Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória.
Será favorecido de longos dias,
e mostrar-lhe-ei a minha salvação.

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