Esse texto eu achei sem querer, durante meus estudos solitários das tardes longas, longuíssimas – que são ainda mais longas porque, em São Paulo, o sol demora a se pôr (resquícios do verão). Coloco aqui, para ver se me obrigo a escrever por aqui e para lembrar de ver poesia nas coisas.
CARTA
Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
(Carlos Drummond de Andrade. Lição de coisas. In:Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 332)
